Estudantes participam de debate sobre drogas em encontro nacional

Nesta terça-feira (22/07), durante o Encontro Nacional dos Estudantes de Ciências Sociais (ENECS), realizado na cidade de Salvador, trinta estudantes e pesquisadores de várias universidades do país pautaram um debate sobre drogas.

Dentre as entidades ou grupos participantes, estiveram Sérgio Vidal, coordenador da ANANDA (Associação Interdisciplinar de Estudo sobre plantas Cannabaceae, de Salvador) e Rafael Gil, participante do rizoma Princípio Ativo, de Porto Alegre (RS). Também ali estiveram participantes das edições das Marchas da Maconha de João Pessoa, Recife, Rio de Janeiro e Santa Catarina. Foram distribuídas cópias de um guia para a Redução de Danos voltado especificamente ao uso de maconha; num enfoque informativo sobre a nova lei, e nos direitos e deveres das pessoas que usam drogas.

O debate se tranformou em uma roda de diálogo

Dentre os assuntos em pauta, estiveram presentes o fenômeno da organização política das pessoas que usam drogas, no atual ambiente de criminalização (o caso das repressões às Marchas da Maconha em 2008), e os danos sociais e à saúde provenientes da filosofia de guerra às drogas – bem como a necessidade de pensar alternativas à mesma. Pensaram-se também as aproximações do movimento antiproibicionista com outros movimentos que também debatem o uso dos prazeres, práticas culturais ligadas ao corpo, como os movimentos feminista e LGBTTT. Entendeu-se como recente a abertura de diálogo sobre drogas, da mesma forma como é recente o diálogo sobre sexualidade; comparando-se o desenvolvimento das paradas gays e lésbicas conforme o amadurecimento político e o surgimento de associações ligadas em rede que fomentaram debates sobre gênero nas mais diversas arenas políticas da sociedade.

Sérgio Vidal traçou um histórico das políticas de drogas de países como Austrália, Inglaterra e Espanha, situando o contexto de alternativas buscadas por outros países, e sugerindo um debate sobre os pontos fortes e fracos. Também foram examinados aspectos da política de drogas holandesa, principalmente num sentido de desmistificar as imagens de “permissividade total” normalmente a ela atribuída. Diante disso, o debate foi propositivo, reconhecendo que a proibição das drogas, ao omitir a sua realidade (e não admitir que eliminá-las por completo é uma tarefa impossível) é um caminho que limita o campo de ações, seja na “redução de oferta ou demanda”, seja na promoção de saúde e direitos humanos das pessoas que usam drogas.

Destacaram-se as falas visando a mediação de conflitos, numa sociedade na qual o diálogo sobre drogas está ainda amadurecendo. Neste sentido se reconheceu como essencial a contribuição de olhares antropológicos, pensando nos valiosos saberes populares sobre usos de drogas (infelizmente hoje marginalizados) e no reconhecimento dos tabus relacionados ao tema, acolhendo uma realidade hoje negada. O importante papel de movimentos e grupos como a Marcha da Maconha, portanto, passou pelo seu potencial de gerar debates junto à sociedade como um todo, com o grande desafio de superar a fórmula do “ser contra ou ser a favor” – fórmula esta que, coincidentemente ou não, estava refletida no título que a organização do evento deu à mesa: “liberar ou reprimir”?

Como era de se esperar, o debate também teve contrapontos importantes, motivados em uma leitura da realidade de usos abusivos, notadamente de drogas como o crack. Levou-se em conta, diante disso, os recortes que podemos fazer entre diferentes classes sociais e condições de vida e usos de drogas em geral, assumindo que os processos de saúde e doença (e por extensão, as diversas relações com as drogas) são processos psico-sociais. As políticas de proibição também foram analisadas naquilo que contribuem para esta realidade, uma vez que fomentam a adulteração como via de lucro, a clandestinidade dos rituais de uso e, principalmente, a dificuldade na organização política das pessoas diretamente envolvidas com estas políticas: as pessoas que usam drogas. Diante desta dificuldade, nega-se uma dimensão principal para trabalhar, no âmbito da saúde, a relação das pessoas com as drogas que usam, que é a dimensão da autonomia.

O debate prosseguiu pelos corredores da UFBA
“Escolher” entre o que é apologia e o que é repressão torna-se um falso dilema, para o qual as Ciências Sociais poderia fornecer ferramentas valiosas na exploração das nuances e riquezas do objeto “droga”. E, como pressuposto, a reafirmação de que usos de drogas são práticas culturais milenares, devendo esta realidade ser cada vez menos negligenciada pela academia e por aqueles que nela transitam.
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