Pedro ‘Pedrada’, da banda Ponto de Equilíbrio, deve ser solto nesta quarta-feira

O baixista da banda Ponto de Equilibrio, Pedro Caetano, preso sob acusação de tráfico de drogas no dia 1º de julho, será solto nesta quarta-feira. O músico foi detido em flagrante depois que a polícia encontrou 10 pés e 8 mudas de maconha em sua casa, em Niterói. Pedro foi enquadrado no artigo 33, que proíbe importar, vender, expor à venda e oferecer drogas ilicitas.
Em sua defesa, o artista se declarou como usuário e buscou ser enquadrado no artigo 28, que descriminaliza quem usa, semeia cultiva ou colhe plantas para consumo pessoal. Agora ele deve responder ao processo em liberdade.

O alvará de soltura já foi assinado pelo juiz da segunda Vara Criminal de Niterói, João Ziraldo Maia. Para Caetano ser solto, só depende da chegada do documento na Polinter do Grajaú, o que deve acontecer ainda nesta quarta-feira.

O irmão do artista, Tiago Caetano, tecladista da mesma banda, disse ao SRZD nesta tarde que a notícia é um alívio para a família. “O sentimento aqui na nossa casa é de justiça e grande alívio. Meu irmão não é traficante, e sim um grande músico. Ele planta para consumo próprio.”, concluiu.

Tiago ainda falou que houve uma demora no processo de liberdade do irmão, devido aos jogos do Brasil na Copa, e à burocracia em relação à documentação, já que Pedro foi preso em São Gonçalo, e depois transferido para Polinter do Grajaú, para seu maior conforto e comodidade. E informou que o documento solicitando a liberdade de Pedro só chegou na promotoria na última segunda-feira, quando, então, o processo foi agilizado.

O show da banda programado para esse período não foi cancelado. A apresentação, realizada sem a presença de “Pedrada”, foi em Porto Alegre, no último dia 9 de julho, que contou com um público de 7 mil pessoas. O baixista Ronaldo Rocha, que também é amigo de Pedro, tocou em seu lugar no evento.
Pedro Caetano morava no bairro de Engenho do Mato, em Niterói – município vizinho ao Rio de Janeiro.

CARTA DO PEDRO “PEDRADA”

Irmãos e irmãs de todo o Brasil…

Primeiramente agradeço pela atenção e interesse de todos e peço encarecidamente para que não deixemos essa chama se apagar…
Tudo começou há mais ou menos cinco anos atrás, quando tive meu primeiro pezinho. Na verdade, nunca escondi muito que plantava apesar de ter noção que poderia ser pego por isso. Pelo contrário, me orgulhava por não financiar o tráfico e ainda por cima desfrutar de uma erva com pureza e qualidade sem igual.

Infelizmente o pior aconteceu e fui “flagrado” com minhas plantinhas no meu quintal. Isto ocorreu por uma denúncia de alguém que se incomodou com meu costume e me dedurou para a polícia do 75º DP de Rio do Ouro, fato que me questiono, pois moro em Itaipu (região oceânica de Niterói), área do 81ºDP.
Desde o momento em que fui abordado percebi a finalidade da polícia e não ofereci nenhuma resistência, inclusive permitindo a entrada deles na minha residência. Afinal, quem não deve, não teme.

De lá fui encaminhado para o 75º DP, onde fiquei de molho num depósito cela com chão úmido e péssimo cheiro, com umas motos velhas entulhadas e outro preso para dividir uma cadeira e jornal no chão para deitar. Fiquei lá das 10h até 6h da tarde aguardando o desenrolar da situação.

Durante minha espera a imprensa foi acionada e junto com a perícia se encaminharam até a minha residência. Lá, infelizmente a imprensa invadiu minha propriedade sem permissão da minha esposa que lá estava. Enquanto eles posavam para fotos com as plantas e pareciam se divertir com a situação junto com o pessoal da perícia, minha esposa, para se preservar ficou no quarto chorando e pedindo para imprensa ir embora, sem sucesso.

De volta à delegacia já com meu advogado em ação fui autuado no artigo 33 como traficante. Ironia do destino, logo eu que me orgulhava de não colaborar com o tráfico, estava preso dessa maneira.

Da 75º fui para Polinter em Neves (São Gonçalo). Logo chegando lá fui obrigado a raspar o cabelo e a barba e encaminhar para o “xadrex 8”, onde dividi uma cela de aproximadamente 40 m² com outros 70 presos. Mas graças a Deus e aos amigos não precisei passar a noite inteira ali, no “xadrez 8”. E no meio da noite tive o privilégio de ir para uma cela mais humana.

No dia seguinte fui transferido para a Polinter do Grajaú, onde estou agora. Cheguei pouco antes do jogo do Brasil contra a Holanda. Logo que cheguei me botaram em um lugar chamado “porquinho”: uma salinha fechada de aproximadamente 7 m², onde os presos aguardam para ser encaminhados para ir para as suas celas. Por azar do destino pouco antes do jogo, o “porquinho” ficou super lotado com 18 presos e tivemos que aguardar desconfortavelmente enquanto o jogo do Brasil rolava. Nunca vou esquecer disso, graças a Deus o jogo não foi à prorrogação.

Agora estou no “X-12” com outros dois presos. Posso dizer que estou em condições humanas perto do que vejo em outras celas aqui mesmo.
Por aqui a vida é nua e crua. É uma espécie de curso intensivo forçado de como viver a vida. Você vê claramente que só há uma coisa a fazer: se agarrar em Deus.

Aí fora sou conhecido no mundo da música como Pedro “Pedrada”, baixista da Banda Ponto de Equilíbrio, bastante popular do segmento do reggae (ritmo de origem jamaicana com muitos apreciadores no Brasil). Como muitos, sou um rastafari. Rastafari para alguns é filosofia de vida, para outros é corte de cabelo, mas para mim e muitos irmãos e irmãs é uma religião e existe toda uma cultura em torno dos rastas.

Uma das características mais surpreendentes da cultura Rastafari é o uso da ganja (canabis sativa popularmente conhecida como “maconha”). Dentro de rituais religiosos onde se lê a Bíblia e outros textos sagrados, tocamos tambor no ritmo Nyahbinghi e entoamos hinos de louvor a Deus (Jah) e aos elementos da natureza. Até o Príncipe Charles já participou de um ritual Nyahbinghi, pode se assistir em vídeo postado no youtube.

Eu como rastafari sempre enxerguei a ganja como uma planta sagrada e buscava o uso de forma respeitosa de acordo com os preceitos da religião a que sigo. Sendo o Brasil um país laico me senti profundamente lesado com a atitude da polícia e da imprensa com a forma que fui tratado.

Outro elemento da minha religião são os dreadlocks, tipos de cabelos usados pelos rastas, o qual fui obrigado a cortar para entrar em Neves. Fato que também me lesou moral e espiritualmente.

Termino agradecendo mais uma vez a todos que se sensibilizam com a causa e conseguiram chegar aqui. Resta-me a utópica expectativa de um avanço na política legislativa para que outros não sofram o que eu e minha família sofremos e alerto, em ano de eleição, para um voto consciente.

Paz, amor e caminhos abertos para o povo de brasileiro.

                    Pedro “Pedrada” Caetano.


FONTE: SRZD

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