Com tema em discussão, Argentina tem degustação de maconha

Argentino desfila com amostras das flores inscritas na competição.

Imagine um evento dirigido especificamente à degustação de maconha. Se você imaginou algo underground, em algum bairro periférico, com pessoas de perfil suspeito e ambiente pouco acolhedor, pode esquecer. A Copa Canábica C.A.B.A. (Cidade Autônoma de Buenos Aires), que está em sua quinta edição, não tem nada a ver com a imagem de submundo ligada ao consumo da droga. As copas canábicas acontecem há 11 anos na Argentina, a mais antiga é a que recebe o nome de Del Plata. A segunda copa mais antiga desse tipo tem um apelo mais técnico, ou seja, que está mais voltada aos produtores caseiros.

Mais parecido com uma feira de produção de orquídeas ou qualquer outra planta que exija cuidados específicos, a Copa Canábica é um evento promovido pela revista Haze, direcionada ao público produtor de cannabis sativa. Por isso, é um local de encontro para os diversos produtores, os chamados cultivadores independentes. Gente que planta para o consumo próprio ou, no máximo, para compartilhar entre amigos. Realizado nas dependências de uma casa noturna no bairro de Palermo Queens, local conhecido pela efervescência da sua vida noturna e pela variedade de restaurantes que abriga, a copa começou às 10h e se estendeu por todo o domingo.

“Existem cerca de 60 competidores que trazem as suas melhores flores para que os jurados façam a degustação”, disse Eduardo Camaron, brasileiro e colunista da revista que organiza o evento. “Os itens avaliados são potência, aroma, apresentação e sabor. O jurado atribui uma nota a cada um deles, que somadas resultam na qualificação”, afirmou Camaron.

Além disso, o evento oferece ao público degustações às cegas, nas quais o participante tem seus olhos vendados possibilitando “fazer a cabeça” com todos os seus sentidos plenamente ativados. Existe também uma competição entre “fechadores” de baseado, nome popular para o cigarro de maconha. Aquele que fechar o melhor baseado ganha, além de um troféu, uma série de brindes da revista. Entre camisetas e chaveiros, brindes mais tradicionais, estão os mousses e muffins feitos à base de maconha.

Perfil do público
Estimado em 300 pessoas, o público é composto por jovens da classe média alta portenha. “São geralmente leitores da revista patrocinadora, que pagam cerca de R$ 100 para ter acesso ao evento”, disse Ramiro Barreiro, um dos jornalistas da revista.

O perfil do cultivador e do próprio consumidor de maconha mudou muito com o passar dos anos. Existe uma diversificação muito grande entre as pessoas que se interessam pelo tema. “Até a avó de uma amigo, inteirada dos efeitos analgésicos da droga, me pediu para experimentar um dia desses”, afirmou Camaron. “Aqui você vai encontrar gente de todo tipo”, disse ele.

No evento, três amigas compartilhavam um outro tipo de erva, a mate, enquanto aproveitavam o ambiente de liberdade da copa. Com uma média de idade de 30 anos, todas estudantes universitárias e trabalhadoras de setores administrativas de grandes empresas, elas começaram a cultivar a planta há pouco tempo e aproveitaram a feira para trocar experiências e informações sobre o plantio da cannabis.

O mercado do cultivo independente
O cultivo independente de maconha na Argentina apresentou um aumento significativo após a crise econômica de 2001. “Os usuários não tinham mais o mesmo poder de compra de antes da crise, então tiveram que buscar outras alternativas para ter acesso à droga”, disse Maxi Muños, editor de arte da revista especializada no cultivo.

Um exemplo da popularidade da prática na Argentina é a própria existência dessa publicação, única em âmbito global a tratar especificamente do plantio. “A nossa revista não faz apologia ao uso de maconha, nossa revista pretende promover a troca de informações entre os produtores caseiros”, afirmou Muños.

A revista existe há cerca de dois anos e tem tantos anunciantes que permite que todo seu pessoal possa viver da publicação. Uma boa parte dos anunciantes ou patrocinadores são produtores europeus de sementes.

A Copa Cannabica é um bom exemplo do crescimento do mercado especializado em produtos para o cultivo. No evento, havia estandes específicos de produtores de sementes, que têm um custo médio de 70 euros. Era possível conhecer também estandes com diferentes tipos de fertilizantes e até mesmo uma câmara com luz especial para o cultivo indoor – dentro de ambiente fechado, a outra alternativa é o cultivo externo, ou outdoor – da planta.

A “primavera da descriminalização”
O porte de maconha e seu consumo caseiro está permitido na Argentina desde 2009, quando a Corte Suprema declarou inconstitucional o artigo 14.2 da Lei 23.737, a lei antidrogas. Baseado no direito à privacidade de todo cidadão argentino, a brecha se abriu no tocante ao fumo praticado em casa, ou na rua, contanto que não fira ao bem-estar social. E é esse direito à privacidade que possibilita que os cultivadores tenham pequenas plantas dentro das suas casas, ainda que o cultivo independente ainda não esteja totalmente liberado no país.

A Argentina está alguns passos atrás do vizinho Uruguai, que divulgou na semana passada um projeto de lei que pretende descriminalizar o uso de maconha controlando a compra e venda da droga por organismos estatais. Apesar disso, existe um clima otimista com relação a descriminalização, bem como um impulso do usuários em sair às ruas e “mostrar a cara” gerado pela aprovação da Lei do Matrimônio Igualitário de 2010. “A última Marcha pela Legalização ocorrida no país levou cerca de 40 mil pessoas à praça de Maio, quando a penúltima havia mobilizado apenas 15 mil”, ilustra Barreiro.

Outro motivo apontado pelo grupo envolvido na luta pela descriminalização para o otimismo é o perfil do governo de Cristina Kirchner. Não necessariamente representado pela aprovação da presidente, mas sim por políticos como o senador Aníbal Fernandez, que já se manifestou favorável a aprovação da Lei que permitiria o livre consumo da droga na Argentina. “A própria possibilidade de realização de um evento ilegal, como é a Copa Canábica, sem que soframos qualquer tipo de retaliação aponta que estamos vivendo um tempo onde as liberdades individuais estão em um momento de expressão ímpar em nosso país”, disse Ramiro Barreio. “Estamos vivendo um clima de Primavera da Descriminalização”, afirmou Camarón.

Por Luciana Rosa, do Terra

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