2. Cultivando a Si Mesmo

Esse texto faz parte do livro Cannabis Medicinal Introdução ao Cultivo Indoor (pág. 10 a 15)

Há 15 anos atrás, quando eu tinha 16, tive contato com a cannabis pela primeira vez. Ouvi de uma professora na escola uma lista de drogas na qual a cannabis constava junto com outras que, segundo ela, poderiam causar vício, danos à saúde e overdose letal. No início, como ocorre com a maioria das pessoas, contaram-me apenas que ela era uma droga perigosa. Porém, no mesmo ano li num livro da biblioteca da escola que a maconha não causava overdose letal e, a partir daí, passei a acreditar que tinha algo errado em algumas histórias que me contaram.

Aos poucos descobri que tratava-se de uma planta. Uma planta que deveria sim ser muito respeitada, mas que sozinha não fazia mal a ninguém. Por conta dos meus estudos, descobri também que as flores fêmeas dessa planta de fato produzem uma resina muito poderosa, que a ciência moderna considera como droga. Descobri que essa resina tem diversas propriedades medicinais, conhecidas por diferentes civilizações há milhares de anos. E, a partir de todas essas descobertas, meus conceitos sobre maconha, drogas e ciência começaram então a mudar.

Em 2000, 5 anos depois da leitura do meu primeiro livro sobre a maconha, tive meu primeiro computador com acesso à internet. Mais uma vez, um mundo totalmente novo se abriu para mim. Comecei a conhecer a cultura do cultivo de cannabis que nesse momento ganhava força na rede. Em 2002 passei a fazer parte da equipe do Growroom, maior fórum de sobre a planta em português, do qual faço parte até hoje.

Em todo esse tempo conheci os mais diferentes tipos de pessoas que cultivavam cannabis medicinal para uso pessoal. Tive lições preciosas de pessoas que cultivavam há anos, mas também aprendi muito com pessoas que estavam na primeira colheita. Também encontrei pessoas que cultivam há muito tempo cometendo os mesmos erros de alguns iniciantes e ainda novatos mais íntimos com a planta do que muitos veteranos.

Em toda essa jornada a maior lição que tirei é de que não existe uma “receita de bolo” para o cultivo de cannabis medicinal. Em outras palavras, todo conhecimento contido nesse e em outros livros e revistas especializadas, ou em sites e fóruns na internet, jamais dará conta de todas as situações de cultivo. Cada planta é única. Cada jardim é singular. Em toda minha trajetória como pesquisador encontrei mais dúvidas, controvérsias e questões a serem exploradas e pesquisadas com mais profundidade do que certezas ou consensos.

Ao começar a ler esse livro, você precisa também iniciar a desconstruções de alguns mitos. Qualquer pessoa está apta a cultivar cannabis para uso medicinal. Essa é uma tarefa tão ou menos complicada e trabalhosa do que ter um cão, gato ou um aquário, por exemplo.

Ao terminar de ler esse livro perceberá que, no fundo, o maior trabalho de um cultivador é compreender o ritmo de vida da planta e suas necessidades, procurando se adequar à elas. No fim, aprenderá que a maior lição desse processo é cultivar em nós mesmos as virtudes da paciência e do olhar compreensivo, buscando entender as necessidades dos seres que crescem no jardim. Dedicando-se a entendê-los e respeitá-los, tudo caminhará bem.

Não espere que a planta tenha sede só na hora que puder regá-la. Ou que ela apresente alguma oscilação de pH apenas quando puder estar atento à isso. Se precisar se ausentar por alguns dias, ela não poderá parar seu metabolismo para esperar por cuidados. Você pode até buscar controlar ao máximo tais fatores, mas sempre tendo em mente que eles jamais poderão ser controlados totalmente. Vou repetir pois isso tem que virar seu lema pessoal: as necessidades das plantas seguem um ritmo próprio de vida e terá o jardineiro de cannabis medicinal terá que se adaptar à isso. Se não há tempo ou espaço na sua vida para dedicar-se ao jardim não há porque semear plantas que só sofrerão por falta de cuidados.

Aos interessados em cultivar sua própria cannabis medicinal é necessário que aprendam a modificar seu olhar sobre a planta. É preciso aprender a enxergá-la como um ser vivo que deve ser respeitado e não apenas como matéria-prima para obter o medicamento desejado. Só quando é tratada com respeito e carinho a cannabis responde com saúde, vigor e abundância.

Ao longo do meu envolvimento com o cultivo de cannabis medicinal sempre procurei adotar a postura de eterno aprendiz. Acredito que todas as pessoas têm coisas a aprender, se não com outros cultivadores, com suas próprias experiências. A convivência com a planta lhe renderá aprendizados diários, pois ela jamais se cansará de lhe dar lições. Acredito que manter-se aberto para todos essas lições é o caminho mais sábio.

Lembre-se que nos cultivos em estufas a planta é totalmente dependente de quem a está cultivando. Dentre outras coisas, é você que irá observar se a luz está alcançado de forma satisfatória todas as suas folhas e providenciar as mudanças necessárias. Antes disso, providenciará planejar e construir um ambiente de cultivo adequado a todas as necessidades dos vegetais. Todos os aspectos da vida num jardim indoor dependem do trabalho e dedicação do cultivador.

Aos aspirantes a jardineiros de cannabis medicinal cabe assumir e manter o compromisso com os seres vivos que se propuseram criar. Amor, carinho, dedicação e estudo são muito mais importantes para o cuidado das plantas do que fertilizantes importados ou mega investimentos em tecnologia de ponta para a estufa.

Todo conhecimento que tenho sobre a planta e seu cultivo devo não apenas à pesquisa bibliográfica especializada. Devo esse conhecimento principalmente aos muitos cultivadores experientes e iniciantes, que compartilharam seus conhecimentos comigo. Seria simplesmente impossível citar todos, mas os amigos de verdade que fiz nesse caminho sabem que é deles que estou falando agora. A todos vocês, meus sinceros agradecimentos e meus votos das melhores colheitas.

Espero ter podido com esse livro somar mais uma colaboração e fortalecer a cultura do cultivo de cannabis medicinal para uso pessoal no Brasil. Agradeço a todos que direta ou indiretamente colaboraram para que esse livro pudesse estar em suas mãos. Como já afirmei, esse livro é dedicado ao amor, à amizade e à Santa Maria. Essas foram as forças que guiaram todo seu feitio e desejo que sejam as mesmas que guiem sua leitura.

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